Arquitetura de verdade

Arquitetura é um assunto menos discutido no Brasil do que merece ser. Numa cidade como São Paulo, quase todos os ambientes pelos quais circulamos diariamente foram, com mais ou menos cuidado, desenhados por arquitetos. A qualidade do desenho desses espaços afeta diretamente, portanto, a qualidade do nosso dia a dia. Seria natural, então, que um assunto tão constante em nossas vidas fosse debatido também com mais regularidade.

Mas em geral aceitamos os ambientes pelos quais circulamos diariamente sem considerar que eles poderiam ser diferentes. Muita gente, por exemplo, sem ser cineasta, consegue conversar sobre cinema com uma capacidade analítica quase profissional. Seria muito saudável à nossa arquitetura que as pessoas em geral – e não só profissionais ligados ao assunto – desenvolvessem essa capacidade de observação e espírito crítico também em relação a ela.

Porque, além de ser um tema sobre o qual conversamos pouco, conversamos sobre arquitetura superficialmente. É quase um consenso hoje em dia reclamar do estilo neoclássico, que dominou as fachadas dos lançamentos imobiliários nas últimas décadas – como se o problema arquitetônico desses prédios fosse simplesmente estético. Ou como se não houvesse – inclusive em São Paulo, por exemplo, com Jacques Pilon – edifícios projetados dentro de princípios mais clássicos e ao mesmo tempo com excelente qualidade arquitetônica.

Na verdade, um dos principais problemas dos neoclássicos construídos em São Paulo nos últimos anos é justamente o fato de não terem praticamente nenhuma característica fundamental de edifícios clássicos originais: eles são muito altos, afastados da calçada, enclausurados em grades pesadas, de proporções desorganizadas e materiais falsos. Palladio jamais os aprovaria. Não basta, portanto, só executarmos “arquitetura contemporânea” para nos livrarmos dos defeitos dos nossos edifícios neoclássicos: porque os principais defeitos desses edifícios neoclássicos não são propriamente da arquitetura clássica.

E arquitetura contemporânea não é em si necessariamente boa. É verdade que ela pode ser mais honesta cronologicamente. Mas, quando vira moda, e quando passa a ser executada exatamente pelos mesmos arquitetos que antes projetavam neoclássicos, ela pode sofrer distorção parecida com a que foi feita com a arquitetura clássica. Em certa medida, aliás, isso já vem acontecendo. Edifícios que se auto-proclamam novos ícones da cidade repetem defeitos básicos de projeto, como uma implantação desajeitada, enquanto fazem malabarismos com uma fachada de vidro. Não é o que deveriam ter aprendido com Renzo Piano.

Essa preocupação obsessiva com a fachada – com o suposto estilo do prédio -, enquanto aspectos elementares de um bom projeto são deixados de lado, tem alguma coisa adolescente. No desespero de parecer ser atualizado, “contemporâneo”, certos projetos parecem um carro rebaixado, com vidros escuros, de rodas largas e escapamento cromado, com adesivo de faíscas saindo pelas laterais – mas com o mesmo motor de 1988. Não é um aerofólio de fibra de vidro que vai fazer um Kadett tunado andar igual a um Porsche.

E é esta capacidade para perceber a diferença fundamental entre as coisas – entre o que é realmente um carro bom e o que se esforça para parecer que é – que precisamos desenvolver também em arquitetura. Vários projetos recentes de empreendimentos imobiliários em São Paulo foram desenhados com muito cuidado, de escritórios como FGMF, Reinach Mendonça e Andrade e Morettin. São projetos de arquitetura contemporânea da melhor qualidade: além de materiais e tecnologias novas, eles tem uma relação harmoniosa com a rua em que estão inseridos, espaços abertos e iluminados, detalhes bem resolvidos, etc. Se a fachada desses arquitetos é moderna e ao mesmo tempo elegante, não é por simples afetação estilística: mas porque o projeto inteiro foi pensado nesse sentido, desde o seu método construtivo até os seus menores espaços.

Não é suficiente, portanto, que, para melhorarmos a qualidade média da nossa cidade, comecemos agora desenvolver projetos com “arquitetura contemporânea” aleatoriamente. Certos princípios fundamentais da boa arquitetura – distribuição inteligente dos espaços, elegância estética, acabamentos bem pensados e executados com eficiência – são universais e funcionam em qualquer época. Utilidade, beleza e solidez – aqueles princípios de Vitrúvio -, tão clássicos, tão óbvios, às vezes parecem esquecidos. Antes de arquitetura clássica ou contemporânea, o que precisamos mesmo é de uma arquitetura de verdade.

Artigo publicado no O Estado de São Paulo, em 18 de setembro de 2011

* Eduardo Andrade de Carvalho é formado em Administração de empresas pela EAESP/ FGV e sócio da Moby Incorporadora

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: